Ontem sofri, ainda que menos que o costume, com a derrota de Portugal frente à Grécia. De manhã tinha colocado na varanda uma bandeira de Portugal que orgulhosamente flutua ao ar fresco destes dias. A chuva enrolou-a várias vezes no seu mastro durante o dia como que a agoirar um mau resultado.
Assim foi. Perdemos e eu só não fiquei deprimido porque estava mais preocupado com grelhar as carnes do churrasco e com encher os copos de cerveja dos amigos que tinha em casa.
Depois do jogo de Portugal assistimos ao Rússia-Espanha. E eis senão quando a Irina se levanta ao escutar o hino russo. A Irina é Bielorrussa. Mudaste de nacionalidade, perguntei com uma ponta de maldade para tentar encavacá-la. Gosto tanto deste hino, disse ela. A resposta não me satisfez e fiquei com pena da Irina. Como é que alguém pode ter dúvidas quanto à sua pertença nacional? Como pode alguém levantar-se para homenagear o hino do vizinho?
A Irina não tem nacionalidade, tem um passaporte que diz que ela é bielorrussa. Mas podia dizer russa que ela ficava ainda mais satisfeita. As pessoas gostam de pertencer a países grandes? Talvez seja isso. Talvez seja mais prestigiante ser russo que bielorrusso. Eu gosto de ser português e não é por a Espanha ser maior e mais importante na cena internacional que me apetece prestar vassalagem ao meu amigo Juan Carlos.
Mas as minhas surpresas não ficaram por aqui. A Irina perguntou à minha inquilina se ela não estava a pensar mudar de nacionalidade. Portuguesa; sei lá... Isto quer dizer que a Irina já pensou em ser portuguesa. Talvez porque está apaixonada por um português. Talvez porque, para ela, tudo é melhor que ser bielorrusso.
A minha inquilina ficou surpresa e disse-lhe que não. Que gosta muito de ser polaca e que não troca a sua nacionalidade por nada. A Irina desistiu mas deve ter pensado que ser polaco é xunga e que a minha inquilina não está a ver bem o filme.
A Olga é russa, mas por via do casamento também tem passaporte francês. Sei que ela gosta de França e que outro dia disse que se sente mais francesa que outra coisa. Perguntei-lhe por isso por quem torceria ela numa eventual final do Euro 2004 que envolvesse a Rússia e a França. Como a Olga anda de candeias às avessas com o marido francês e até considera a possibilidade de regressar ao Caucaso, respondeu, depois de uns segundos de reflexão, Rússia. No entanto, a Olga não se levantou quando o hino russo tocou nem ficou muito aborrecida por causa da derrota com a Espanha.
É estranha a forma como alguns vivem a sua nacionalidade, como a assumem e por que valores a trocariam. Talvez eu seja conservador, talvez seja demasiado nacionalista, mas não consigo imaginar, na ordem actual das coisas, uma razão que me levasse a deixar de ser português. E é esse mesmo espírito que faz de mim pouco europeu. Que não me deixa levar até ao fim o raciocínio da união que a Europa prepara, porque não me quero diluir nesse "melting pot" de países em que ser português hoje pode equivaler a ser letão, irlandês ou romeno amanhã.
13 de junho de 2004
15 de maio de 2004
O chupao - The End
Dizer à Svetlana vamos ali para um hotel não parecia terafa simples. A sorridente Sveta dava a entender que era séria, angelical e que o facto de trabalhar num cabaré, ser apalpada por mãos diferentes todas as horas e a preço de champanhe era puro acidente do destino. Uma falha cósmica que o Fernando, por exemplo, poderia reparar.
O Fernando estava convencido de que ela queria um homem para casar, para ficar no Ocidente com ele e, quem sabe, ter filhos e uma casa em Itzig. A Svetlana não sabia sequer onde era Itzig mas o Fernando sabe que lá há um hotelzinho familiar mesmo ali na curva quem vem da estrada que vai dar ao cemitério alemão. "E se fôssemos ver o cemitério alemão", perguntou o Fernando com um sorriso motivado. Ela não percebeu e por isso disse que sim. O Fernando meteu o carro ao caminho e as mnaos à obra na coxa esquerda da Svetlana que por acaso trazia uns jeans duros demais para se aproveitar alguma coisa.
Quando eu te tirar estes jeans não sobra nada, pensava o Fernando enquanto a Svetlana murmurava a música do Robbie Williams que o Fernando tinha posto de propósito para ela.
Chegados em frente ao cemitério o Fernando julgou por bem dizer algo e disse que de noite metia um bocado demedo, não é? Ela entrou em pânico quando percebeu onde estavam e disse qualquer coisa como tirem-me daqui que o Fernando não percebeu, mas percebeu que ela não estava nada contente por ali estar.
Vamos tomar um copo aqui perto para acalmar, disse com ar desanimado e desculposo. Chegado à entrada do hotel o Fernando explicou que já que não havia bares abertos aquelas horas da noite o melhor era tomarem qualquer coisa do minibar que havia nos quarto do hotel. Ela só percebeu que ia para um hotel quando o Fernando girou a chave e disse: entra, hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. A Svetlana desde então nunca mais gostou de Sérgio Godinho.
O Fernando estava convencido de que ela queria um homem para casar, para ficar no Ocidente com ele e, quem sabe, ter filhos e uma casa em Itzig. A Svetlana não sabia sequer onde era Itzig mas o Fernando sabe que lá há um hotelzinho familiar mesmo ali na curva quem vem da estrada que vai dar ao cemitério alemão. "E se fôssemos ver o cemitério alemão", perguntou o Fernando com um sorriso motivado. Ela não percebeu e por isso disse que sim. O Fernando meteu o carro ao caminho e as mnaos à obra na coxa esquerda da Svetlana que por acaso trazia uns jeans duros demais para se aproveitar alguma coisa.
Quando eu te tirar estes jeans não sobra nada, pensava o Fernando enquanto a Svetlana murmurava a música do Robbie Williams que o Fernando tinha posto de propósito para ela.
Chegados em frente ao cemitério o Fernando julgou por bem dizer algo e disse que de noite metia um bocado demedo, não é? Ela entrou em pânico quando percebeu onde estavam e disse qualquer coisa como tirem-me daqui que o Fernando não percebeu, mas percebeu que ela não estava nada contente por ali estar.
Vamos tomar um copo aqui perto para acalmar, disse com ar desanimado e desculposo. Chegado à entrada do hotel o Fernando explicou que já que não havia bares abertos aquelas horas da noite o melhor era tomarem qualquer coisa do minibar que havia nos quarto do hotel. Ela só percebeu que ia para um hotel quando o Fernando girou a chave e disse: entra, hoje é o primeiro dia do resto da tua vida. A Svetlana desde então nunca mais gostou de Sérgio Godinho.
25 de janeiro de 2004
O chupão - Part 3
O jantar correu bem. O Fernando só cometeu um erro: disse ao escanção para escolher o vinho. Ele escolheu um sicialiano, porque o Fernando disse que tanto ele como "a menina" gostam de vinhos encorpados. Esse siciliano chamado Della não sei quê custou só 100 euros, valor que o empregado se sentiu obrigado a explicar: "eu sou italiano e digo-lhe que este vinho que beberam é do melhor que há na Sicília".
Com um amargo de boca Fernando sacou do American Express e aproveitou para mostrar sem mostrar que era cheio de pasta. OK, 220 euros, valeu-os bem, não valeu? A Svetlana até tinha o coração ao pé da boca e balbuciou que isso é o preço de uma garrafa lá no sítio onde ela trabalha. O Fernando já tinha pensado a mesma coisa mas a esperança de levar a Svetlana para um hotel fazia-lhe pensar que afinal nem foi caro.
Com um amargo de boca Fernando sacou do American Express e aproveitou para mostrar sem mostrar que era cheio de pasta. OK, 220 euros, valeu-os bem, não valeu? A Svetlana até tinha o coração ao pé da boca e balbuciou que isso é o preço de uma garrafa lá no sítio onde ela trabalha. O Fernando já tinha pensado a mesma coisa mas a esperança de levar a Svetlana para um hotel fazia-lhe pensar que afinal nem foi caro.
2 de janeiro de 2004
O chupão - Part 2
Jantar com uma russa na cidade onde o Fernando mora é a mesma coisa que dizer a todos os outros clientes do restaurante: olhem para mim aqui a enganar a minha mulher com esta puta do cabaré. Russa nessa cidade é sinónima de puta, o que dá sempre para brincar com os amigos fazendo trocadilhos de classe com a palavra russa, inspirando-se em velhas expressões tais como mula russa, salada russa e outras combinações que à mesa do café ficam sempre bem e alegram o ambiente.
O Fernando estava disposto a investir nesse jantar. Foi ao tal restaurante italiano muito chique e bastante caro e decidiu impressionar. Já tinhas vindo aqui? Eu venho cá almoçar muitas vezes. Eles têm um prato do dia excelente à hora de almoço que só custa 20 euros; e como eu trabalho aqui perto dá muito jeito. A Svetlana abstinha-se de comentar. Disfrutava o pato com molho de mel e trufas que custava 28 dele. Por outro lado, o Fernando tinha sempre a distinta impressão de que a miúda não percebia metade do que ele dizia. Na realidade a Sveta falava mal inglês e em português só sabia tchim tchim quando brindava.
O Fernando estava disposto a investir nesse jantar. Foi ao tal restaurante italiano muito chique e bastante caro e decidiu impressionar. Já tinhas vindo aqui? Eu venho cá almoçar muitas vezes. Eles têm um prato do dia excelente à hora de almoço que só custa 20 euros; e como eu trabalho aqui perto dá muito jeito. A Svetlana abstinha-se de comentar. Disfrutava o pato com molho de mel e trufas que custava 28 dele. Por outro lado, o Fernando tinha sempre a distinta impressão de que a miúda não percebia metade do que ele dizia. Na realidade a Sveta falava mal inglês e em português só sabia tchim tchim quando brindava.
19 de dezembro de 2003
O chupão - Part 1
O Fernando conheceu uma miúda há uns meses. Conhecer não é bem o termo; o Fernando pagou-lhe umas taças de champanhe num cabaré chique e acabou por lhe sacar o número de telfone. Contou-lhe o filme habitual: que era solteiro, tinha um empregão, deu a entender que não contava o dinheiro e que adorava restaurantes caros.
A miúda (chamemos-lhe assim para preservar a identidade da "dançarina") telefonou-lhe logo no dia seguinte para confirmar o jantar de que tinham falado na véspera. O Fernando estava acompanhado pela mulher e não podia falar. Tou, tou? Rais parta, estou mesmo a precisar d eum telefone novo. Meia hora mais tarde ligou-lhe para explicar que estava num parque de estacionamento subterrâneo onde obviamente a cobertura é mínima. Ela acreditou e combinaram um jantar para um dia destes que esta semana o Fernando estava muito ocupado e tinha de partir em viagem muito cedo no dia seguinte.
Passaram-se duas semanas até o Fernando pensar outra vez na Svetlana. E só pensou porque ela lhe mandou um SMS a perguntar se ele estava bem. O Fernando pensou que tinha de agir. Chegou a casa e disse à mulher que talvez tivesse de ir visitar um cliente no dia seguinte de manhã muito cedo e que, se calhar, era boa ideia arrancar já e dormir mais descansado já no local. Como a Eugénia não se mostrou muito surpresa o Fernando resolvou avançar com o plano. Afinal ele tinha de partir assim às pressas algumas vezes e ela nunca desconfiou de nada.
Telefonema à Sveta e um convite para jantar. Claro que sim. E lá foram os dois a um italiano muito chique que serve vinhos que chegam a custar quinhentas mocas.
A miúda (chamemos-lhe assim para preservar a identidade da "dançarina") telefonou-lhe logo no dia seguinte para confirmar o jantar de que tinham falado na véspera. O Fernando estava acompanhado pela mulher e não podia falar. Tou, tou? Rais parta, estou mesmo a precisar d eum telefone novo. Meia hora mais tarde ligou-lhe para explicar que estava num parque de estacionamento subterrâneo onde obviamente a cobertura é mínima. Ela acreditou e combinaram um jantar para um dia destes que esta semana o Fernando estava muito ocupado e tinha de partir em viagem muito cedo no dia seguinte.
Passaram-se duas semanas até o Fernando pensar outra vez na Svetlana. E só pensou porque ela lhe mandou um SMS a perguntar se ele estava bem. O Fernando pensou que tinha de agir. Chegou a casa e disse à mulher que talvez tivesse de ir visitar um cliente no dia seguinte de manhã muito cedo e que, se calhar, era boa ideia arrancar já e dormir mais descansado já no local. Como a Eugénia não se mostrou muito surpresa o Fernando resolvou avançar com o plano. Afinal ele tinha de partir assim às pressas algumas vezes e ela nunca desconfiou de nada.
Telefonema à Sveta e um convite para jantar. Claro que sim. E lá foram os dois a um italiano muito chique que serve vinhos que chegam a custar quinhentas mocas.
Viagem à Tailândia - The End
O Silvino telefonou. Diise que tinha estado na Martinica. Que foi lá fazer fotografias. Que o tempo estava óptimo e que - gargarejar equivalente a gargalhada - devia estar melhor que aqui. Perguntou-me se eu e a Sónia tínhamos planos. Gaguejei, disee que estava a ouvir mal. Planos para quê? Quando? Este sábado estou na vossa zona, podíamos encontrar-nos, acrescentou. Não, nós não estamos, vamos para longe, um para cada lado e depois, logo a seguir, é Natal e regressamos ao seio das nossas famílias. Fica para Janeiro, acrescentei. Óptimo, disse o Silvino contente com a promessa. A gente então combina qualquer coisa para o ano novo. Ano novo vida nova, ah ah, cacarejou.
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