Estou sem notícias do Silvino. Da última vez que me telefonou queria ir ao novo "health club" muito chique, aquele que abriu há pouco tempo no bairro mais chique da cidade. A conversa que tivemos deixou pelo menos a certeza de que o Silvino não me telefona para me levar para a cama com ele. Sugerir que a Sónia levasse uma amiga foi uma espécie de desabafo de último segundo, que era na realidade o objectivo do telefonema. O homem devia estar cá por causa dos seus negócios e não tinha nada para fazer naquela sexta-feira ao fim da tarde.
Escusado será dizer que não lhe liguei. Mas prometi que lhe dizia alguma coisa antes das seis da tarde. Esqueci-me, contudo, de desligar o telemóvel. por volta das sete o Silvino telefonou-me e eu, irritado no meio do trânsito e entre duas chamadas para as quais não tinha pachorra cortei a chamada. Ele não voltou a tentar nem deixou recado.
Um sentimento de culpa invadiu-me. Devia pelo menos ter-lhe dito que não ia. Imaginei o Silvino no duche, a pentear-se e a perfumar-se pensando que ia encontrar-se com uma boazona qualquer que eu e a Sónia lhe íamos apresentar. Imaginei-o a escolher a camisa e as calças com corte do início dos anos 80 e colocar perfume com os dedos debaixo das abas do casaco. E imaginei a expressão de decepção quando a chamada foi cortada. Desiludido e sem actividade para aquela sexta à noite. Ele que até tinha comprado um roupão de algodão caríssimo, igual a um que tinha visto num senhor barrigudo que depois da piscina cruzou no parque de estacionamento a entrar para um Carrera verde com estofos de couro beige.
20 de novembro de 2003
17 de novembro de 2003
Viagem à Tailândia - Part 3
O Silvino telefonou-me. Disse-me que há muito tempo que não nos falávamos e que gostava de falar comigo. Perguntou-me que é que eu ia fazer amanhã. Não menti, disse que não sabia, mas não lhe revelei que não ia certamente encontrar-me com ele. Informou-me que pensava ir a um novo "health club" excelente, topo de gama, uma coisa maravilhosa, onde ele pensava um dia destes fazer fotografias de belas manequins, na piscina, na sauna, "que aquilo é mesmo muito bonito".
Imaginei o Silvino de toalhinha à cintura, com a careca proeminente, com o sorriso Pepsodent e a barriga a escorrer. Não consegui imaginá-lo despido nos banhos turcos. Mas consegui ver a debandada de paneleiros que habitualmente enchem o "hammam" à procura de sensações fortes que são apenas um olhar indiscreto sobre um baixo-ventre.
Será que o Silvino gosta de homens? Naquele clube costumam parar muitos homossexuais, quem sabe...
Isso não me demovia de o encontrar, mas não gosto de situações dúbias, de momentos em que duas pessoas se perguntam, num momento de silêncio mais prolongado: "que raios estou aqui a fazer?". Inevitável se eu me encontrar com o Silvino.
"A Sónia não quer vir também?", acrescentou. E interrompeu o meu "vou falar com ela", acrescentando: "e pode trazer uma amiga, se quiser...".
Imaginei o Silvino de toalhinha à cintura, com a careca proeminente, com o sorriso Pepsodent e a barriga a escorrer. Não consegui imaginá-lo despido nos banhos turcos. Mas consegui ver a debandada de paneleiros que habitualmente enchem o "hammam" à procura de sensações fortes que são apenas um olhar indiscreto sobre um baixo-ventre.
Será que o Silvino gosta de homens? Naquele clube costumam parar muitos homossexuais, quem sabe...
Isso não me demovia de o encontrar, mas não gosto de situações dúbias, de momentos em que duas pessoas se perguntam, num momento de silêncio mais prolongado: "que raios estou aqui a fazer?". Inevitável se eu me encontrar com o Silvino.
"A Sónia não quer vir também?", acrescentou. E interrompeu o meu "vou falar com ela", acrescentando: "e pode trazer uma amiga, se quiser...".
13 de novembro de 2003
Viagem à Tailândia - Part 2
O Silvino esqueceu-se de mim. Passou mais de um mês sem que ele me contactasse. Eu facilmente me esqueci dele. Falei com a Sónia sobre o que poderia ele fazer na vida. Especulámos mas nenhuma das nossas apostas nos satisfez. Como era possível que alguém pusesse fortunas nas mãos daquele tipo para atravessar fronteiras?!
O Silvino tem ar de amanuense, diria o meu amigo Carlos, mas para mim a comparação ideal faz-se com o Bolhãozinho. Bem sei que a maioria dos meus leitores não sabem quem é o Bolhãozinho, mas eu explico. O Bolhãozinho chama-se Filipe, se não me engano. O senhor Filipe tinha uma velha mercearia mesmo no centro de Felgueiras, junto ao tristemente famoso edifício da Câmara Municipal. Eu só soube que o Bolhãozinho se chamava Filipe porque andei com o filho dele no liceu e ele um dia disse que se chamava Filipe como o pai, numa tentativa atabalhoada de nos convencer a chamá-lo pelo nome e não Bolhãozinho. Mas quem se parece com o Silvino não é o Bolhãozinho junior mas o pai, aquele que sempre conheci atrás de um balcão de madeira, anormalmente baixo, numa mercearia que parecia nunca ter visto a luz nem do sol nem de artifícios tais que lâmpadas. Pior, o Bolhãozinho (porque toda a gente chamava indiferentemente Bolhãozinho à loja ou ao proprietário) ficava virado a noroeste, o que deixava de parte toda e qualquer possibilidade de o sol entrar na loja, tal como nunca entrou no café Belém nem na ourivesaria do Barros, que foi a primeira a ter vidros antibala. Por acaso, um dia, um camião sobrecarregado de troncos de pinheiros passava mesmo em frente à ourivesaria do Barros, que também se chamava ourivesaria Barros, e devido à inclinação do piso deixou cair metade da carga contra as montras repletas de ouro e relógios de marca. Não sobrou um só vidro antibala. O que levou metade dos mangas do meu liceu a escrever nas novas montras, debaixo da placa dourada que anunciava "vidro à prova de bala": "...e à prova de pinheiros?".
O Silvino tem ar de amanuense, diria o meu amigo Carlos, mas para mim a comparação ideal faz-se com o Bolhãozinho. Bem sei que a maioria dos meus leitores não sabem quem é o Bolhãozinho, mas eu explico. O Bolhãozinho chama-se Filipe, se não me engano. O senhor Filipe tinha uma velha mercearia mesmo no centro de Felgueiras, junto ao tristemente famoso edifício da Câmara Municipal. Eu só soube que o Bolhãozinho se chamava Filipe porque andei com o filho dele no liceu e ele um dia disse que se chamava Filipe como o pai, numa tentativa atabalhoada de nos convencer a chamá-lo pelo nome e não Bolhãozinho. Mas quem se parece com o Silvino não é o Bolhãozinho junior mas o pai, aquele que sempre conheci atrás de um balcão de madeira, anormalmente baixo, numa mercearia que parecia nunca ter visto a luz nem do sol nem de artifícios tais que lâmpadas. Pior, o Bolhãozinho (porque toda a gente chamava indiferentemente Bolhãozinho à loja ou ao proprietário) ficava virado a noroeste, o que deixava de parte toda e qualquer possibilidade de o sol entrar na loja, tal como nunca entrou no café Belém nem na ourivesaria do Barros, que foi a primeira a ter vidros antibala. Por acaso, um dia, um camião sobrecarregado de troncos de pinheiros passava mesmo em frente à ourivesaria do Barros, que também se chamava ourivesaria Barros, e devido à inclinação do piso deixou cair metade da carga contra as montras repletas de ouro e relógios de marca. Não sobrou um só vidro antibala. O que levou metade dos mangas do meu liceu a escrever nas novas montras, debaixo da placa dourada que anunciava "vidro à prova de bala": "...e à prova de pinheiros?".
23 de outubro de 2003
Viagem à Tailândia - Part 1
O Silvino telefonou-me a perguntar se eu queria ir à Tailândia. Fiquei tão baralhado com o convite como ele. Numa conversa entrecortada de gaguejos e explicações, disse-me que estava a pensar ir à Tailândia para o mês que vem; que tinha lá um amigo que tinha um hotel; que arranjava alojamento gratuito; que eu e a Sónia só precisávamos de pagar o bilhete de avião e que ele até podia contribuir com "uma modesta participação".
Disse-lhe que nunca tinha ido à Tailândia. Achei bem começar por aí, sem nunca lhe revelar que não gosto de viagens intercontinentais e que actualmente não tenho vontade nenhuma de sair de casa a não ser de carro. Disse-lhe que não sabia se no mês que vem conseguiria libertar-me das minhas obrigações profissionais. Disse-lhe ainda que tinha de falar com a Sónia. Caso arrumado. Agora bastava evitar a próxima chamada do Silvino para não lhe dar hipótese de dizer "então já pensaste na nossa viagem à Tailândia?".
Perguntei à Sónia o que é que ela achava. Afinal mal conhecemos o Silvino. Encontramo-lo por acaso e nenhum dos projectos semiprofissionais que me foi propondo conheceu o menor esboço. Na realidade nunca percebi em que ramo ele trabalhava. "Vinhos", explicou-me no dia em que nos conhecemos, "tenho um sítio internet destinado aos produtores de vinho verde". Nunca justificou muito bem, mas eu também não pedi pormenores, porque é que o sítio incluía uma galeria erótica com fotos de mulheres bastante bonitas mas em topless. "Um dia fizemos umas fotografias da Miss Vinho Verde e depois tivemos a ideia de colocar mais fotos de belas raparigas da região demarcada", disse-me nesse primeiro almoço.
Agora recordo que me explicou também que algumas dessas fotos tinham sido tiradas na Tailândia, onde um amigo tem um "resort" de luxo.
O almoço com o Silvino foi estranho. Chegou atrasado, com ar perturbado por qualquer coisa, como se tivesse acabado de ter um acidente de automóvel. Disse que gostava muito daquela pizzaria, mas que tinha tido algumas dificuldades para encontrar o caminho. Enquanto secava o suor que lhe invadia a testa, penteava para o cucuruto a madeixa única que disfarçava mal a calvície generalizada. Comemos rapidamente enquanto ele interrogava a Sónia: de onde vem, para onde vai, que estudou, que procura na vida, porque não faz fotografias de moda, não me diga que tão nova resolver deixar as passereles...
Com as pizzas suficientemente revolvidas nos pratos decidimos que era chegado o momento de sair do restaurante. Trocámos cartões de visita e prometemos que nos contactaríamos em breve. O Silvino insisitiu ainda que devíamos tratar-nos por tu e explicou porque é que conduzia um mísero Peugeot 206 a gasóleo: "é que assim é mais discreto". Por meias palavras deu a entender que tinha imenso dinheiro mas que as suas actividades económicas menos legais estariam em risco se se deslocasse num carro de rico. "Assim, a polícia quando me manda parar nem imagina que eu, às vezes, trago comigo milhares e milhares de euros nesta mala".
Disse-lhe que nunca tinha ido à Tailândia. Achei bem começar por aí, sem nunca lhe revelar que não gosto de viagens intercontinentais e que actualmente não tenho vontade nenhuma de sair de casa a não ser de carro. Disse-lhe que não sabia se no mês que vem conseguiria libertar-me das minhas obrigações profissionais. Disse-lhe ainda que tinha de falar com a Sónia. Caso arrumado. Agora bastava evitar a próxima chamada do Silvino para não lhe dar hipótese de dizer "então já pensaste na nossa viagem à Tailândia?".
Perguntei à Sónia o que é que ela achava. Afinal mal conhecemos o Silvino. Encontramo-lo por acaso e nenhum dos projectos semiprofissionais que me foi propondo conheceu o menor esboço. Na realidade nunca percebi em que ramo ele trabalhava. "Vinhos", explicou-me no dia em que nos conhecemos, "tenho um sítio internet destinado aos produtores de vinho verde". Nunca justificou muito bem, mas eu também não pedi pormenores, porque é que o sítio incluía uma galeria erótica com fotos de mulheres bastante bonitas mas em topless. "Um dia fizemos umas fotografias da Miss Vinho Verde e depois tivemos a ideia de colocar mais fotos de belas raparigas da região demarcada", disse-me nesse primeiro almoço.
Agora recordo que me explicou também que algumas dessas fotos tinham sido tiradas na Tailândia, onde um amigo tem um "resort" de luxo.
O almoço com o Silvino foi estranho. Chegou atrasado, com ar perturbado por qualquer coisa, como se tivesse acabado de ter um acidente de automóvel. Disse que gostava muito daquela pizzaria, mas que tinha tido algumas dificuldades para encontrar o caminho. Enquanto secava o suor que lhe invadia a testa, penteava para o cucuruto a madeixa única que disfarçava mal a calvície generalizada. Comemos rapidamente enquanto ele interrogava a Sónia: de onde vem, para onde vai, que estudou, que procura na vida, porque não faz fotografias de moda, não me diga que tão nova resolver deixar as passereles...
Com as pizzas suficientemente revolvidas nos pratos decidimos que era chegado o momento de sair do restaurante. Trocámos cartões de visita e prometemos que nos contactaríamos em breve. O Silvino insisitiu ainda que devíamos tratar-nos por tu e explicou porque é que conduzia um mísero Peugeot 206 a gasóleo: "é que assim é mais discreto". Por meias palavras deu a entender que tinha imenso dinheiro mas que as suas actividades económicas menos legais estariam em risco se se deslocasse num carro de rico. "Assim, a polícia quando me manda parar nem imagina que eu, às vezes, trago comigo milhares e milhares de euros nesta mala".
3 de outubro de 2003
Angel - The End
A angel foi o meu primeiro amor cibernético. Se calhar é por isso que gosto tanto dela. Foi a primeira pessoa que me disse “Sorry. I am not into cyber sex”. Fiquei admiradíssimo. Não foi por causa de gostar daqueles conversas eminentemente sexuais; foi porque eu pensava que todos os frequentadores daqueles lugares só queriam uma coisa. A angel foi a primeira que disse que não e, contudo, fiquei a falar com ela. Ainda hoje não sei porquê.
Se estou arrependido? Não sei. Acho que não. Nunca me tinha apetecido escrever um livro antes de a conhecer. Mentira. Apetece-me escrever um livro sempre que estou na merda. Mentira. Apetece-me escrever um livro sempre que estou apaixonado. Também me apetece escrever um livro sempre que leio um livro de que gosto muito, mas como leio pouco, foram mais as vezes em que a paixão me motivou.
A angel não me pôs a escrever livros, no entanto, fartei-me de lhe enviar mensagens electrónicas. O mal foi quando lhe falei do meu “estado civil” e ela voou. Aí entrei em parafuso. Passei algumas horas à procura de um computador no sul de França, onde estava de férias, a mandar-lhe mensagens românticas em que chorava a minha desgraça. Como estava a decorrer o festival de cinema de Cannes, achei que era boa ideia mandar-lhe alguns e-mails em nome de artistas de cinema. Como era de esperar, ela não resistiu a tanto charme. Quem pode ficar indiferente a uma mensagem assinada por Jeremy Irons em que ele diz que me viu na rua e ficou assustado com o meu ar triste e abatido. E continuava, como se eu e a vedeta fossemos amigos de longa data, a explicar que eu estava assim triste porque tinha conhecido uma rapariga fantástica que não me passava bola porque eu lhe tinha mentido. E depois o Jeremy assinava todo o tipo de cunhas: “fala com ele, angel”, “dá-lhe uma hipótese”, “o Paulo sempre foi um tipo fantástico”.
As cunhas do Jeremy Irons funcionaram, já para não falar nas dos irmãos Taviani. Na altura achei que dava uma certa pinta escolher os Taviani. A angel parecia-me suficientemente ilustrada para saber que eles existiam e, por outro lado, dois realizadores europeus ficariam sempre bem a interceder por mim. E fizeram-no em diálogo. Escusado será dizer que o texto roçava a genialidade. E numa língua estrangeira! Se provas fossem precisas, bastava contar que ela me respondeu imediatamente na vez seguinte em que a encontrei na rede. Fiquei contentíssimo por ela falar comigo outra vez e resolvi atirar-me de cabeça. Caí mal. Ela nunca mais me ligou nenhuma.
Voltei a vê-la num chat semanas depois e ainda lhe disse olá. Ela respondeu-me: “estou ocupada”.
Se estou arrependido? Não sei. Acho que não. Nunca me tinha apetecido escrever um livro antes de a conhecer. Mentira. Apetece-me escrever um livro sempre que estou na merda. Mentira. Apetece-me escrever um livro sempre que estou apaixonado. Também me apetece escrever um livro sempre que leio um livro de que gosto muito, mas como leio pouco, foram mais as vezes em que a paixão me motivou.
A angel não me pôs a escrever livros, no entanto, fartei-me de lhe enviar mensagens electrónicas. O mal foi quando lhe falei do meu “estado civil” e ela voou. Aí entrei em parafuso. Passei algumas horas à procura de um computador no sul de França, onde estava de férias, a mandar-lhe mensagens românticas em que chorava a minha desgraça. Como estava a decorrer o festival de cinema de Cannes, achei que era boa ideia mandar-lhe alguns e-mails em nome de artistas de cinema. Como era de esperar, ela não resistiu a tanto charme. Quem pode ficar indiferente a uma mensagem assinada por Jeremy Irons em que ele diz que me viu na rua e ficou assustado com o meu ar triste e abatido. E continuava, como se eu e a vedeta fossemos amigos de longa data, a explicar que eu estava assim triste porque tinha conhecido uma rapariga fantástica que não me passava bola porque eu lhe tinha mentido. E depois o Jeremy assinava todo o tipo de cunhas: “fala com ele, angel”, “dá-lhe uma hipótese”, “o Paulo sempre foi um tipo fantástico”.
As cunhas do Jeremy Irons funcionaram, já para não falar nas dos irmãos Taviani. Na altura achei que dava uma certa pinta escolher os Taviani. A angel parecia-me suficientemente ilustrada para saber que eles existiam e, por outro lado, dois realizadores europeus ficariam sempre bem a interceder por mim. E fizeram-no em diálogo. Escusado será dizer que o texto roçava a genialidade. E numa língua estrangeira! Se provas fossem precisas, bastava contar que ela me respondeu imediatamente na vez seguinte em que a encontrei na rede. Fiquei contentíssimo por ela falar comigo outra vez e resolvi atirar-me de cabeça. Caí mal. Ela nunca mais me ligou nenhuma.
Voltei a vê-la num chat semanas depois e ainda lhe disse olá. Ela respondeu-me: “estou ocupada”.
29 de setembro de 2003
Angel - Part 7
Doeu. Doeu muito. E ela tinha razão. Quanto falámos pela primeira vez eu tinha-lhe dito que era solteiro. Aliás, no princípio dizia quase sempre.
O mal do mundo cibernético é que é muito fácil mentir. Durante uns dias ainda hesitei sobre se havia ou não de lhe dizer que era casado, mas não consegui evitar. Começava a gostar demasiado dela para lhe esconder isto. Tinha de deixar tudo claro. Estupidez. Ela não precisava de saber. Estava a mais de mil quilómetros de mim e no meio estava o Canal da Mancha e auto-estradas onde se conduz pelo lado errado da faixa de rodagem.
Mas hoje também foi doloroso. Passaram cerca de dois meses em que eu não consegui falar com ela por causa da revelação do meu estado civil e agora que tudo parecia voltar ao normal - pelo menos ela já falava comigo outra vez - estraguei tudo. Resolvi começar a fazer-lhe declarações de amor. Que ela era fantástica e que a Emma era só uma tentativa de a esquecer ou talvez substituir. Que cada vez que eu via o nome dela no ecrã sentia um arrepio na espinha. Que, em suma, a amava.
Ela ainda me interrompeu. Não me faças isto. Pára! Mas eu insisti. Por vezes sou como um boi. Estúpido e teimoso. Ela desligou o computador e eu fiquei a olhar para o ecrã, para uma mensagem cada vez mais familiar. %SYSTEM%: angel has left Chat.
O meu "sweet self" ficou um bocado amargurado. Não sei porque carga de água comecei a bater-lhe coros com tanta violência, sabendo que ela não sabe encaixá-los. Há duas razões, além da estupidez e da precipitação: gosto mesmo muito dela e como já tive a Emma apetecia-me começar já a investir numa novidade. Às vezes não gosto muito de mim.
O mal do mundo cibernético é que é muito fácil mentir. Durante uns dias ainda hesitei sobre se havia ou não de lhe dizer que era casado, mas não consegui evitar. Começava a gostar demasiado dela para lhe esconder isto. Tinha de deixar tudo claro. Estupidez. Ela não precisava de saber. Estava a mais de mil quilómetros de mim e no meio estava o Canal da Mancha e auto-estradas onde se conduz pelo lado errado da faixa de rodagem.
Mas hoje também foi doloroso. Passaram cerca de dois meses em que eu não consegui falar com ela por causa da revelação do meu estado civil e agora que tudo parecia voltar ao normal - pelo menos ela já falava comigo outra vez - estraguei tudo. Resolvi começar a fazer-lhe declarações de amor. Que ela era fantástica e que a Emma era só uma tentativa de a esquecer ou talvez substituir. Que cada vez que eu via o nome dela no ecrã sentia um arrepio na espinha. Que, em suma, a amava.
Ela ainda me interrompeu. Não me faças isto. Pára! Mas eu insisti. Por vezes sou como um boi. Estúpido e teimoso. Ela desligou o computador e eu fiquei a olhar para o ecrã, para uma mensagem cada vez mais familiar. %SYSTEM%: angel has left Chat.
O meu "sweet self" ficou um bocado amargurado. Não sei porque carga de água comecei a bater-lhe coros com tanta violência, sabendo que ela não sabe encaixá-los. Há duas razões, além da estupidez e da precipitação: gosto mesmo muito dela e como já tive a Emma apetecia-me começar já a investir numa novidade. Às vezes não gosto muito de mim.
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