Ando muito em baixo pá! A Clara quer acabar tudo! A relação está por um fio! As coisas estavam a ficar melhor e de repente o namorado dela descobriu um sms meu muito comprometedor! Eu sempre lhe disse que não devia guardar as minhas mensagens mas ela não tinha coragem de as apagar. Dizia ela que tinha proibido o namorado de lhe mexer no telemóvel e que se o apanhasse acabariam tudo! É claro que eu sempre pensei que se fosse eu, ficaria logo desconfiado e seria exactamente isso que eu iria fazer na primeira oportunidade. Também nunca percebi como é que o gajo aceitou isso! Ou era burro, ou (a hipótese mais provável) tinha tanto medo do que ía encontrar que nem tinha coragem! Parece que finalmente a arranjou e eu nem percebo como é que ela lhe deu a volta e com que argumentos! A verdade é que deu e é claro que em vez de acabar tudo com ele, como lhe tinha prometido, assustou-se, concluiu que não o que perder, que não aguentará o escândalo e que não poderá suportar a vergonha que sentirá perante a sua família, mas sobretudo perante a família dele. Excusado será dizer que, sendo assim, quem fica em maus lençóis sou seu! Ficou cheia de medo e acha que não vai aguentar a pressão. Para ela, ficou agora claro que a nossa relação não tem futuro. Ela diz que, apesar de saber que não temos hipóteses, não tem coragem de acabar, porque sabe que se arrependerá no minuto seguinte! Eu digo que isto parece quando o meu pai estava a morrer: eu sabia que ele não tinha hipótese de se salvar, sabia que quando tudo acabasse ele e nós pararíamos de sofrer, mas no entanto, nunca quis que ele morresse! Parecemos dois parvos! Isto não ata nem desata, mas ninguém desliga as máquinas! Por mim sei porquê. Primeiro, porque gosto mesmo da miúda. Segundo, porque ela tem 20 anos e eu sei que dificilmente voltarei a ter uma mulher de 20 anos. Já tenho 39, que diabo! Sei que ela ás vezes é mesmo "operária", que o seu nível cultural é fracote e que ninguém acharia correcto se eu abandonasse a minha família para me juntar a ela. Sinceramente, eu próprio acho que me arrependeria se desse esse passo. Mas que diabo, ela é esperta, é divertida, surpreende-me muitas vezes com conhecimentos que tem e que eu próprio não domino, sinto-me muito bem ao pé dela e, sobretudo, quando está nua tem um nível intelectual absolutamente extraordinário! Que me interessa o nível intelectual da nossa conversa quando ela me arranha todo de prazer?! E onde é que eu vou encontar outra mulher que durante 14 meses da nossa relação teve sempre orgasmos múltiplos cada vez que fazíamos amor, mesmo que durante muito tempo tivessemos sexo pelo menos 1 vez por semana e muitas delas 2 ou 3, sem que ela se cansasse ou achasse rotineiro? Claro que eu estou aterrorizado! Quem não estaria, ao pressentir uma perda tão grande e com a certeza quase absoluta de nunca voltar a arranjar substituta à altura! E como é que eu posso sequer imaginar que vou voltar a ficar em casa quietinho com a minha mulher e o sexo raro e medíocre que temos? Aínda por cima, não realizei ainda todas as minhas fantasias sexuais com ela! Por várias razões, apesar de já ter conseguido o seu acordo tácito, nunca tivemos sexo anal. E isso vai-me ficar atravessado como uma das maiores frustrações da minha vida!Não é fácil, pá! Ando tão descoroçoado que ontem marquei uma viagem de trabalho a Paris pela Net. Enganei-me nas putas das datas e tive que comprar 1 bilhete novo! Hoje de manhã, entrei numa rua de sentido único, pelo sentido proibido! E eu conheço a puta da rua de cor! É a minha cidade, foda-se! Nunca me senti assim por causa de uma mulher! E tu sabes que eu me apaixono facilmente e perdidamente!
Bem, se não for passado a ferro por um camião caso entre na via errada da auto-estrada ou algo parecido, volto a dar-te notícias quando houver novidades.
Abraço,
Zeca
14 de outubro de 2004
14 de setembro de 2004
Caro Zeca,
Eu acho que consigo respeitar a regra número um. Ou seja, não me apaixono pelas amantes. Bem sei que às vezes é difícil e devo admitir que às vezes ando um bocado desorientado, mas apaixonar não.
Na realidade não estou apaixonado por absolutamente ninguém. Nem sequer pelo meu carro, de que gosto muito mas sem mais. A minha inquilina é uma gaja porreira que não chateia. É boa na cama e alinha em tudo o que eu quero, incluindo coisas menos católicas que um dia destes pode ser que te conte. Mas não estou apaixonado. tenho muita ternura por ela e gosto de "tomar conta" dela mas é só.
Eu tenho este defeito de me armar em Pigmalião. Dar banho às meninas, ensinar-lhes coisas, pô-las a falar francês e, de preferência, arranjar-lhes um trabalho estável. É por isso que a minha amante francesa é uma novidade: é estudante e os pais pagam-lhe tudo. Isso para mim é inédito.
As últimas relações que tive andei com elas a cargo e a suportar os encargos.
É por isso que esta lituana de que te falei me excita. Porque ela tem um trabalho bom e estável e até insiste para pagar o almoço a meias (coisa nunca vista!).
Bem, agora vou-te deixar que tenho de ir comer à cantina para ver se a cruzo por lá. Ela hoje estava com umas calças justinhas de bombazina fininha que lhe ficavam tão bem...!
Ruca
Na realidade não estou apaixonado por absolutamente ninguém. Nem sequer pelo meu carro, de que gosto muito mas sem mais. A minha inquilina é uma gaja porreira que não chateia. É boa na cama e alinha em tudo o que eu quero, incluindo coisas menos católicas que um dia destes pode ser que te conte. Mas não estou apaixonado. tenho muita ternura por ela e gosto de "tomar conta" dela mas é só.
Eu tenho este defeito de me armar em Pigmalião. Dar banho às meninas, ensinar-lhes coisas, pô-las a falar francês e, de preferência, arranjar-lhes um trabalho estável. É por isso que a minha amante francesa é uma novidade: é estudante e os pais pagam-lhe tudo. Isso para mim é inédito.
As últimas relações que tive andei com elas a cargo e a suportar os encargos.
É por isso que esta lituana de que te falei me excita. Porque ela tem um trabalho bom e estável e até insiste para pagar o almoço a meias (coisa nunca vista!).
Bem, agora vou-te deixar que tenho de ir comer à cantina para ver se a cruzo por lá. Ela hoje estava com umas calças justinhas de bombazina fininha que lhe ficavam tão bem...!
Ruca
Caro Ruca,
Eu nunca fui capaz de separar sexo dos sentimentos. Apaixonei-me sempre (bem, quase sempre) pelas gajas que quiseram ir prá cama comigo. E esta é muito especial. Nunca conheci ninguém como ela, tanto no negativo, como no positivo, e é por isso que estou tão preso. No entanto, a questão do divórcio não tem a ver directamente com esta rapariga. É algo que eu já equaciono há algum tempo, mesmo quando aínda não tinha ninguém. A verdade é que a minha relação com a Beatriz está esgotada e eu acho que nunca mais seremos capazes de a recuperar. Em linguagem correcta, já não nos amamos. O nosso casamento passou a ser uma sociedade de interesses, com duas filhas que ambos amamos e com um sexo muito fraquinho e muito raro. Assusta-me pensar que é isto que eu terei para o resto da vida, principalmente agora que acho que vou ficar sem a Clara.
Mas ouve lá, tu és pior do que eu, porque eu caso-me, mesmo que seja com as amantes, e passo a ser fiel, e tu estás sempre a trocar. És lixado, pá! Então tu não tiveste já problemas de progressão na carreira por andares a comer gajas no serviço? E continuas?
Se fosse eu também continuava, deixa lá!
Zeca
Mas ouve lá, tu és pior do que eu, porque eu caso-me, mesmo que seja com as amantes, e passo a ser fiel, e tu estás sempre a trocar. És lixado, pá! Então tu não tiveste já problemas de progressão na carreira por andares a comer gajas no serviço? E continuas?
Se fosse eu também continuava, deixa lá!
Zeca
Caro Zeca,
Foda-se! Isto é sério caro amigo! A palavra divórcio aflorar a ponta dos teus dedos choca-me. Eu pensava que tu mantinhas estas relações extra-conjugais à distância da família e dos sentimentos...
Pensa bem e perdoa à rapariga andar a deixar-te em branco: pode ser só uma forma de te mostrar que sentes a falta dela. Como diz um amigo meu, elas são todas umas putas.
Eu ando com uma miúda de 21 anos que estuda a 800 kms daqui e que eu evito com desculpas esfarrapadas. Invento que vou em trabalho para Bruxelas e Londres e que não posso vê-la. O resultado é irmos para a cama de quinze em quinze dias (sempre com resultados fabulosos). Mas a coisa também esfriou nos últimos tempos e ela passou a semana passada a dar-me tampas e a inventar desculpas para não nos vermos. Partiu para a universidade para fazer exames de Setembro até sexta. Se nesse dia não der o corpo ao manifesto também vou ficar muito fodido. Mas não acabo. Se ela quiser que acabe ela.
Mas isto está pior que isto.
Conheci num cabaré uma francesa fabulosa que convidei para jantar. Ela disse que sim e acabamos no hotel. Mas eu não consegui. Desespero, consternação e quase pranto! Pior: a garina regressava à Normândia no dia seguinte e não lhe pus mais a vista em cima. Mas não me cansei de lhe mandar SMS's.
Mas isto continua.
Há aqui no serviço uma lituana fabulosa que vai trabalhar no meu sector e que eu tenho uma vontade tremenda de provar. Já a convidei para uma entrevista de preparação e um almocinho. Amanhã tenho mais uma reunião com ela e daqui até ao fim do mês vou-me amandar pra cima dela. Sem emenda!
Com a minha inquilina está tudo bem, excepto que no meio disto tudo de vez em quando esqueço-me de a comer. E ela pergunta de quando em vez se eu tenho uma amante. Eu rio e claro que digo que não.
Beijinhos do Ruca.
Pensa bem e perdoa à rapariga andar a deixar-te em branco: pode ser só uma forma de te mostrar que sentes a falta dela. Como diz um amigo meu, elas são todas umas putas.
Eu ando com uma miúda de 21 anos que estuda a 800 kms daqui e que eu evito com desculpas esfarrapadas. Invento que vou em trabalho para Bruxelas e Londres e que não posso vê-la. O resultado é irmos para a cama de quinze em quinze dias (sempre com resultados fabulosos). Mas a coisa também esfriou nos últimos tempos e ela passou a semana passada a dar-me tampas e a inventar desculpas para não nos vermos. Partiu para a universidade para fazer exames de Setembro até sexta. Se nesse dia não der o corpo ao manifesto também vou ficar muito fodido. Mas não acabo. Se ela quiser que acabe ela.
Mas isto está pior que isto.
Conheci num cabaré uma francesa fabulosa que convidei para jantar. Ela disse que sim e acabamos no hotel. Mas eu não consegui. Desespero, consternação e quase pranto! Pior: a garina regressava à Normândia no dia seguinte e não lhe pus mais a vista em cima. Mas não me cansei de lhe mandar SMS's.
Mas isto continua.
Há aqui no serviço uma lituana fabulosa que vai trabalhar no meu sector e que eu tenho uma vontade tremenda de provar. Já a convidei para uma entrevista de preparação e um almocinho. Amanhã tenho mais uma reunião com ela e daqui até ao fim do mês vou-me amandar pra cima dela. Sem emenda!
Com a minha inquilina está tudo bem, excepto que no meio disto tudo de vez em quando esqueço-me de a comer. E ela pergunta de quando em vez se eu tenho uma amante. Eu rio e claro que digo que não.
Beijinhos do Ruca.
Caro Ruca,
Sou padrinho do filho do Abel. Como padrinho sinto-me igual a mim próprio. O pai da criança disse-me logo que não era preciso dar prendas na Páscoa, o que me descansou bastante.
O trabalho está todo fodido! A crise ferrou os dentes e não quer largar! Não há ponta por onde se lhe pegue e não há luz ao fundo do túnel. Veremos. A verdade é que ando muito stressado por causa disso e preocupado com o futuro.
Ando também muito em baixo. A minha amiga anda a fugir-me desde as férias. Não me corresponde e está a ofender-me com o seu desprezo e a deixar-me à beira de um ataque de nervos até porque já lhe perguntei e ela diz que não quer acabar e que aínda sente tudo o que sentia por mim. A verdade é que eu gosto da rapariga e não quero perdê-la. Além disso, o sexo com ela tornou-se uma droga para mim e aínda menos quer perder isso. Esta semana combinamos ir prá cama mas já estou a desconfiar que ela vai falhar. Se assim for, acho que vou pôr um ponto final em tudo porque me vou sentir demasiado ofendido para aceitar. Veremos.
Tenho pensado em divorciar-me da Beatriz mas não concebo a ideia de não viver com as minhas filhas todos os dias e, apesar de ela não me ligar a ponta de um corno, a verdade é que também não me chateia e assim não me dá nenhuma razão para eu querer saír de casa. Tou fodido! (É claro que tirando tu e o marido da Xica que morou conosco em Braga (lembras-te?) ninguém sabe disto e é por isso que ainda me convidam pra padrinho.
Abraço.
Zeca
O trabalho está todo fodido! A crise ferrou os dentes e não quer largar! Não há ponta por onde se lhe pegue e não há luz ao fundo do túnel. Veremos. A verdade é que ando muito stressado por causa disso e preocupado com o futuro.
Ando também muito em baixo. A minha amiga anda a fugir-me desde as férias. Não me corresponde e está a ofender-me com o seu desprezo e a deixar-me à beira de um ataque de nervos até porque já lhe perguntei e ela diz que não quer acabar e que aínda sente tudo o que sentia por mim. A verdade é que eu gosto da rapariga e não quero perdê-la. Além disso, o sexo com ela tornou-se uma droga para mim e aínda menos quer perder isso. Esta semana combinamos ir prá cama mas já estou a desconfiar que ela vai falhar. Se assim for, acho que vou pôr um ponto final em tudo porque me vou sentir demasiado ofendido para aceitar. Veremos.
Tenho pensado em divorciar-me da Beatriz mas não concebo a ideia de não viver com as minhas filhas todos os dias e, apesar de ela não me ligar a ponta de um corno, a verdade é que também não me chateia e assim não me dá nenhuma razão para eu querer saír de casa. Tou fodido! (É claro que tirando tu e o marido da Xica que morou conosco em Braga (lembras-te?) ninguém sabe disto e é por isso que ainda me convidam pra padrinho.
Abraço.
Zeca
13 de junho de 2004
Terra pátria
Ontem sofri, ainda que menos que o costume, com a derrota de Portugal frente à Grécia. De manhã tinha colocado na varanda uma bandeira de Portugal que orgulhosamente flutua ao ar fresco destes dias. A chuva enrolou-a várias vezes no seu mastro durante o dia como que a agoirar um mau resultado.
Assim foi. Perdemos e eu só não fiquei deprimido porque estava mais preocupado com grelhar as carnes do churrasco e com encher os copos de cerveja dos amigos que tinha em casa.
Depois do jogo de Portugal assistimos ao Rússia-Espanha. E eis senão quando a Irina se levanta ao escutar o hino russo. A Irina é Bielorrussa. Mudaste de nacionalidade, perguntei com uma ponta de maldade para tentar encavacá-la. Gosto tanto deste hino, disse ela. A resposta não me satisfez e fiquei com pena da Irina. Como é que alguém pode ter dúvidas quanto à sua pertença nacional? Como pode alguém levantar-se para homenagear o hino do vizinho?
A Irina não tem nacionalidade, tem um passaporte que diz que ela é bielorrussa. Mas podia dizer russa que ela ficava ainda mais satisfeita. As pessoas gostam de pertencer a países grandes? Talvez seja isso. Talvez seja mais prestigiante ser russo que bielorrusso. Eu gosto de ser português e não é por a Espanha ser maior e mais importante na cena internacional que me apetece prestar vassalagem ao meu amigo Juan Carlos.
Mas as minhas surpresas não ficaram por aqui. A Irina perguntou à minha inquilina se ela não estava a pensar mudar de nacionalidade. Portuguesa; sei lá... Isto quer dizer que a Irina já pensou em ser portuguesa. Talvez porque está apaixonada por um português. Talvez porque, para ela, tudo é melhor que ser bielorrusso.
A minha inquilina ficou surpresa e disse-lhe que não. Que gosta muito de ser polaca e que não troca a sua nacionalidade por nada. A Irina desistiu mas deve ter pensado que ser polaco é xunga e que a minha inquilina não está a ver bem o filme.
A Olga é russa, mas por via do casamento também tem passaporte francês. Sei que ela gosta de França e que outro dia disse que se sente mais francesa que outra coisa. Perguntei-lhe por isso por quem torceria ela numa eventual final do Euro 2004 que envolvesse a Rússia e a França. Como a Olga anda de candeias às avessas com o marido francês e até considera a possibilidade de regressar ao Caucaso, respondeu, depois de uns segundos de reflexão, Rússia. No entanto, a Olga não se levantou quando o hino russo tocou nem ficou muito aborrecida por causa da derrota com a Espanha.
É estranha a forma como alguns vivem a sua nacionalidade, como a assumem e por que valores a trocariam. Talvez eu seja conservador, talvez seja demasiado nacionalista, mas não consigo imaginar, na ordem actual das coisas, uma razão que me levasse a deixar de ser português. E é esse mesmo espírito que faz de mim pouco europeu. Que não me deixa levar até ao fim o raciocínio da união que a Europa prepara, porque não me quero diluir nesse "melting pot" de países em que ser português hoje pode equivaler a ser letão, irlandês ou romeno amanhã.
Assim foi. Perdemos e eu só não fiquei deprimido porque estava mais preocupado com grelhar as carnes do churrasco e com encher os copos de cerveja dos amigos que tinha em casa.
Depois do jogo de Portugal assistimos ao Rússia-Espanha. E eis senão quando a Irina se levanta ao escutar o hino russo. A Irina é Bielorrussa. Mudaste de nacionalidade, perguntei com uma ponta de maldade para tentar encavacá-la. Gosto tanto deste hino, disse ela. A resposta não me satisfez e fiquei com pena da Irina. Como é que alguém pode ter dúvidas quanto à sua pertença nacional? Como pode alguém levantar-se para homenagear o hino do vizinho?
A Irina não tem nacionalidade, tem um passaporte que diz que ela é bielorrussa. Mas podia dizer russa que ela ficava ainda mais satisfeita. As pessoas gostam de pertencer a países grandes? Talvez seja isso. Talvez seja mais prestigiante ser russo que bielorrusso. Eu gosto de ser português e não é por a Espanha ser maior e mais importante na cena internacional que me apetece prestar vassalagem ao meu amigo Juan Carlos.
Mas as minhas surpresas não ficaram por aqui. A Irina perguntou à minha inquilina se ela não estava a pensar mudar de nacionalidade. Portuguesa; sei lá... Isto quer dizer que a Irina já pensou em ser portuguesa. Talvez porque está apaixonada por um português. Talvez porque, para ela, tudo é melhor que ser bielorrusso.
A minha inquilina ficou surpresa e disse-lhe que não. Que gosta muito de ser polaca e que não troca a sua nacionalidade por nada. A Irina desistiu mas deve ter pensado que ser polaco é xunga e que a minha inquilina não está a ver bem o filme.
A Olga é russa, mas por via do casamento também tem passaporte francês. Sei que ela gosta de França e que outro dia disse que se sente mais francesa que outra coisa. Perguntei-lhe por isso por quem torceria ela numa eventual final do Euro 2004 que envolvesse a Rússia e a França. Como a Olga anda de candeias às avessas com o marido francês e até considera a possibilidade de regressar ao Caucaso, respondeu, depois de uns segundos de reflexão, Rússia. No entanto, a Olga não se levantou quando o hino russo tocou nem ficou muito aborrecida por causa da derrota com a Espanha.
É estranha a forma como alguns vivem a sua nacionalidade, como a assumem e por que valores a trocariam. Talvez eu seja conservador, talvez seja demasiado nacionalista, mas não consigo imaginar, na ordem actual das coisas, uma razão que me levasse a deixar de ser português. E é esse mesmo espírito que faz de mim pouco europeu. Que não me deixa levar até ao fim o raciocínio da união que a Europa prepara, porque não me quero diluir nesse "melting pot" de países em que ser português hoje pode equivaler a ser letão, irlandês ou romeno amanhã.
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